Com grandes reservas, projetos em Goiás, Minas Gerais e interesse crescente da União Europeia e dos Estados Unidos, o Brasil ganha relevância em uma cadeia essencial para motores elétricos, energia limpa, eletrônica avançada e indústria de alta tecnologia.
As terras raras passaram a ocupar um lugar estratégico na agenda industrial global. Apesar do nome, elas não são necessariamente “raras” no sentido de inexistentes. O desafio está em encontrá-las em concentrações economicamente viáveis, extraí-las com responsabilidade ambiental e, principalmente, dominar as etapas de processamento, separação e refino.
Do ponto de vista técnico, terras raras são um grupo de 17 elementos químicos, incluindo os lantanídeos, além de escândio e ítrio. Entre os mais conhecidos estão neodímio, praseodímio, disprósio e térbio — elementos usados em ímãs permanentes de alta performance, motores elétricos, turbinas eólicas, robótica, eletrônica avançada, equipamentos aeroespaciais, semicondutores e sistemas industriais de alta eficiência.
No Brasil, o tema ganhou força em 2026 porque o país aparece entre os maiores detentores de reservas de terras raras do mundo, mas ainda precisa avançar em escala produtiva, tecnologia de separação e agregação de valor industrial. Esse é o ponto central: o potencial brasileiro não está apenas no minério, mas na capacidade de construir uma cadeia completa, indo da mina ao processamento e, futuramente, a produtos de maior valor agregado.
Por que as terras raras são estratégicas?
As terras raras são fundamentais para a transição energética e para a modernização industrial. Sem elas, seria mais difícil produzir motores elétricos compactos e eficientes, turbinas eólicas modernas, equipamentos eletrônicos avançados, sensores, sistemas de automação e diversas tecnologias ligadas à eletrificação.
Na prática, elas estão por trás de três grandes movimentos globais:
Primeiro, a eletrificação da economia. Veículos elétricos, motores industriais mais eficientes, energia eólica e equipamentos de alta performance dependem de materiais magnéticos avançados.
Segundo, a segurança das cadeias de suprimento. Países e blocos econômicos buscam reduzir dependências excessivas de poucos fornecedores globais, especialmente em minerais críticos.
Terceiro, a reindustrialização verde. Não basta extrair. A vantagem competitiva estará cada vez mais em processar, separar, refinar e transformar esses minerais em insumos industriais de alto valor.
É nesse contexto que o Brasil passa a ser observado de forma mais estratégica.
Brasil em 2026: de reserva mineral a parceiro estratégico
Em março de 2026, o Ministério de Minas e Energia publicou o Guia para o Investidor Estrangeiro em Minerais Críticos para a Transição Energética no Brasil, documento que apresenta o potencial brasileiro em minerais como lítio, níquel, cobre, grafita, nióbio, manganês e terras raras. O guia destaca infraestrutura, ambiente regulatório, SIGMine, projetos em andamento e oportunidades para investidores estrangeiros.
A mensagem é clara: o Brasil quer deixar de ser apenas fornecedor de matéria-prima e passar a disputar espaço na cadeia de valor. Essa posição também foi reforçada em março, quando representantes brasileiros defenderam parcerias com países europeus para exploração de minerais críticos e terras raras, mas com transferência de tecnologia, agregação de valor e participação da indústria nacional.
Em julho de 2026, essa estratégia ganhou outro marco com o Plano Nacional de Mineração 2050. Segundo reportagem da Reuters publicada pela Mining Weekly, o governo brasileiro pretende elevar a participação do país na produção global de minerais críticos de 8,3% para 12,2% até 2050. A mesma reportagem destaca que, embora o Brasil tenha uma das maiores reservas de terras raras do mundo, sua participação na produção global ainda é inferior a 1%.
Esse contraste resume o desafio brasileiro: existe potencial geológico, existe interesse internacional, mas o avanço depende de escala, tecnologia, licenciamento, engenharia, processamento e confiabilidade operacional.
As principais notícias de 2026 sobre terras raras no Brasil
1. União Europeia coloca o Brasil no radar dos minerais críticos
Em junho de 2026, a União Europeia passou a tratar o Brasil como parceiro estratégico na diversificação de suprimento de minerais críticos. O movimento foi reforçado pela visita do comissário europeu Jozef Sikela ao centro de pesquisa e processamento de terras raras da Viridis Mining and Minerals, em Poços de Caldas, Minas Gerais.
Segundo a Reuters, a abordagem europeia busca não apenas garantir fornecimento, mas apoiar processamento local, transferência tecnológica, criação de empregos e desenvolvimento de uma cadeia de maior valor no Brasil. O projeto da Viridis em Minas Gerais foi apontado como um dos quatro projetos prioritários para acelerar a colaboração entre União Europeia e Brasil.
Esse é um ponto relevante: a Europa não quer apenas comprar minério. Ela busca fontes alternativas, sustentáveis e integradas à sua cadeia industrial.
2. Viridis e Solvay assinam carta de intenção para fornecimento e processamento
Em 1º de junho de 2026, a Solvay anunciou uma carta de intenção com a Viridis Mining and Minerals para fornecimento de matérias-primas de terras raras do Brasil à planta de La Rochelle, na França. O acordo prevê que a Solvay contribua com sua experiência em separação e processamento para acelerar o fornecimento a partir do Brasil.
A parceria envolve elementos relevantes para ímãs permanentes, como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. A Solvay também informou que sua planta de La Rochelle é uma das maiores unidades de separação de terras raras fora da China e uma das poucas capazes de processar todos os elementos de terras raras em escala industrial.
Para o Brasil, esse tipo de acordo mostra o caminho provável da cadeia: mineração local, integração com tecnologia internacional e, no médio prazo, pressão para desenvolver maior capacidade de processamento dentro do próprio país.
3. Serra Verde é adquirida pela USA Rare Earth em negócio de US$ 2,8 bilhões
Em abril de 2026, a USA Rare Earth anunciou a aquisição da Serra Verde, empresa que opera a mina Pela Ema, em Minaçu, Goiás, em uma transação avaliada em aproximadamente US$ 2,8 bilhões. A Serra Verde opera desde 2024 e é apontada como a única mina ativa de argila iônica no Brasil.
A operação é estratégica porque a Serra Verde produz terras raras pesadas consideradas críticas, como disprósio, térbio e ítrio, fora da Ásia. Esses elementos são especialmente relevantes para ímãs permanentes de alto desempenho e para aplicações industriais de maior sofisticação tecnológica.
A aquisição também mostra que o Brasil entrou na disputa geoeconômica global. O interesse não é apenas mineral; é industrial, tecnológico e estratégico.
4. Araxá avança como projeto de nióbio e terras raras
Em maio de 2026, a Worley foi selecionada pela St George Mining como assessora técnica de viabilidade para o projeto de nióbio e terras raras em Araxá, Minas Gerais. O escopo inclui estudos de viabilidade, engenharia metalúrgica e de processo, planejamento de mina, projeto de planta, gestão de rejeitos, suprimentos e construção.
Araxá já é uma região consolidada na mineração de nióbio, com infraestrutura, mão de obra especializada e presença industrial. O projeto reforça a tendência de aproveitamento de complexos minerais que combinam diferentes minerais críticos, como nióbio, fosfato e terras raras.
Esse avanço é importante porque mostra que terras raras não devem ser vistas de forma isolada. Muitas vezes, elas aparecem associadas a cadeias minerais já existentes, criando oportunidades para novos circuitos de beneficiamento, recuperação de subprodutos e aproveitamento mais inteligente dos recursos.
O que isso significa para a indústria brasileira?
A discussão sobre terras raras não é apenas uma pauta de mineração. É uma pauta de indústria.
Para transformar reservas em vantagem competitiva, o Brasil precisará desenvolver plantas mais sofisticadas, com controle de processo, automação, engenharia química, tratamento de água, controle ambiental, gestão de rejeitos, manutenção preditiva e confiabilidade operacional.
Essa cadeia exige equipamentos e sistemas industriais críticos: britadores, moinhos, bombas, correias transportadoras, redutores, rolamentos, válvulas, sensores, instrumentação, sistemas de automação, plantas de separação, laboratórios, unidades de tratamento e infraestrutura logística.
Nesse ambiente, o MRO — manutenção, reparo e operação — deixa de ser uma atividade de suporte e passa a ser uma condição de competitividade. Uma planta de terras raras não pode depender de manutenção reativa, peças improvisadas ou baixa previsibilidade operacional. Paradas não planejadas significam perda de produção, risco ambiental, atraso em contratos e redução da confiança de investidores e compradores internacionais.
O papel do MRO na nova cadeia de terras raras
A cadeia de terras raras exige disponibilidade, precisão e rastreabilidade. Isso muda o padrão de manutenção.
Empresas que atuam nessa área precisarão de estoques técnicos bem dimensionados, fornecedores qualificados, manutenção preventiva e preditiva, sensores de condição, inspeções regulares, resposta rápida em campo e gestão inteligente de ativos.
Também será necessário integrar manutenção e sustentabilidade. Bombas ineficientes aumentam consumo de energia. Falhas em vedação podem gerar vazamentos. Correias desalinhadas elevam perdas de material. Equipamentos de tratamento de água mal mantidos podem comprometer indicadores ambientais. Em uma mineração cada vez mais observada por investidores, governos e comunidades, confiabilidade operacional e responsabilidade ambiental caminham juntas.
É aqui que empresas como a Coutec Group podem ocupar um espaço estratégico: apoiar a indústria com fornecimento técnico, peças adequadas, soluções industriais, serviços especializados e visão de confiabilidade para operações críticas.
Conclusão
As terras raras colocam o Brasil diante de uma oportunidade rara no sentido econômico, não geológico. O país possui reservas relevantes, projetos em desenvolvimento, interesse internacional e uma janela de oportunidade aberta pela transição energética e pela reorganização das cadeias globais.
Mas a pergunta central não é apenas quanto minério o Brasil possui. A pergunta é se o país conseguirá transformar esse potencial em cadeia industrial, tecnologia, processamento local, empregos qualificados e operações sustentáveis.
Em 2026, os sinais são claros: União Europeia, Estados Unidos, empresas globais de mineração, química e engenharia estão olhando para o Brasil. O próximo passo será construir a base operacional que sustenta essa ambição.
E essa base passa por engenharia, automação, manutenção, peças certas, confiabilidade de planta e gestão inteligente de ativos.
Terras raras podem estar no subsolo. Mas o valor real será capturado acima dele — na capacidade de operar, manter, processar e industrializar com eficiência.